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O Enigma de Tróia

Colocado por em 26 Abr, 2011 | Deixe um comentário


Arqueólogo, investigador, professor catedrático da Faculdade de Letras de Coimbra, Jorge de Alarcão é também o Presidente da Comissão Científica das Ruínas de Tróia. Fala-nos de uma civilização exclusivamente voltada para o trabalho da Indústria conserveira. Mas o que terá determinado o seu fim? Que forma de vida era essa e em que condições viviam? A equipa de arqueólogos das ruínas de Tróia tenta juntar as peças de um puzzle com mais de 20 séculos.

Pode fazer-nos um breve enquadramento histórico daquilo que existiu no lugar das ruínas do Troiaresort?
Ainda não sabemos exactamente o que é que seria Tróia, que tipo de povoado seria. Tróia foi muito importante na época romana como um centro de preparação de conservas de peixe e molhos de peixe.Na península Ibérica há vários centros desses, nomeadamente no Algarve. Mas, sem dúvida, na antiga Lusitânia, Tróia foi o mais importante centro de preparação de conservas. É possível que fosse qualquer coisa a que nós chamamos hoje de área industrial e não propriamente uma povoação ou uma cidade.

Que elementos permitiram chegar a essas conclusões?
O facto de uma dessas unidades industriais, que já está parcialmente escavadas, ter junto dela um cemitério. Isto é muito estranho porque em todas as cidades romanas os cemitérios ficam fora da área urbana. Em Tróia temos esse elemento singular, a necrópole junto de uma casa de habitação e da respectiva indústria.

Data de que altura a povoação que viveu em Tróia?
As indústrias devem ter sido intaladas aí logo no início do Império Romano, ou no tempo de Claúdio, estamos a falar de meados do século I depois de Cristo, ou mesmo possivelmente no tempo de Augusto. Antes disso o sítio teria sido deserto.

Quando foi o fim dessa civilização e o que é que o determinou?
Talvez nos séculos IV, V, VI, ainda está perfeitamente indeterminado. De qualquer forma, na época visigótica provavelmente essa zona estaria abandonada. Se o sítio era monofuncional, se era um centro conserveiro, pode ter sido a falta de mercado que determinou o fim da povoação. O mais natural é que tenha sido por questões económicas. Não deixa de ser possível também um grande tremor de terra, por que não um tsunami? Eventualmente podemos admitir algo assim na época visigótica. Embora me pareça que possa ter sido importante a razão económica.

Quais têm sido as maiores dificuldades enfrentadas pelas equipas no terreno?
O problema das areias – sobre as ruínas acumularam-se vários metros cúbicos de areia -, o que de alguma maneira é uma vantagem porque as estruturas conservaram-se melhor. Quando em meados do século XVIII, no tempo de D. Maria I, foram feitas as primeiras escavações descobriram-se casas ainda conservadas ao nível do primeiro andar e muito bem preservadas porque ainda tinham pinturas nas paredes do primeiro andar. Mas se por um lado as areias que se acumularam conservaram as ruínas, por outro são ainda hoje um dos principais problemas, porque se se escava o interior de uma casa mas se deixam as areais à volta elas exercem pressão e destroem-na.

Que trabalho é que está a ser feito neste momento? É um trabalho contínuo?
É um trabalho contínuo mas em pequena escala até porque as instruções que temos do Ministério da Cultura e do IGESPAR são no sentido de que se deve consolidar antes de fazer quaisquer escavações em larga escala. Neste momento o que se tem estado a fazer é exactamente a conservação e escavação em muita pequena escala para resolver problemas pontuais.

Texto por Cátia Fernandes na revista Winter in Troia Resort

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